Ao observar e analisar alguns ativos na B3 e depois das quedas fortes que ocorreram em março, já parcialmente recuperadas, ainda vemos ativos com múltiplos que parecem indicar que estão descontados.

 

Para quem não está familiarizado com a análise fundamentalista, múltiplos são indicadores calculados a partir das métricas divulgadas no balanço e na DRE das empresas. Como exemplo, podemos citar o P/L (preço/lucro), o P/VP (preço/valor patrimonial), P/Ebit (preço/Ebit) etc. No caso do P/L, o mais utilizado, quanto menor ele for, em menos tempo eu recupero o valor investido quando da compra da ação. Ideal comprar com P/L abaixo de 10 ou até menos, pois indica que o valor aportado na ação retornará sob a forma de lucro em menos de 10 anos (ou 10% a.a, bem acima da taxa de juros básica no momento).

 

Vou escolher um ativo para reforçar o argumento que deu nome ao título desse artigo. O ativo é a C & A, ticker CEAB3, companhia que atua no setor de Comércio Varejista de Tecidos, Vestuário e Calçados. Não precisa nem ressaltar que esse setor foi muito afetado com a pandemia do COVID-19, pois teve que fechar suas lojas por mais de dois meses, especialmente as localizadas em shoppings centers, cuja retomada está começando apenas agora em junho em algumas cidades. Então seu faturamento e seu lucro já foi afetado no primeiro trimestre e será também nos próximos. Sem contar que, mesmo com a reabertura das lojas, o cenário para consumo está bem mais restrito para as classes sociais que consomem os produtos da empresa, devido a redução da renda de boa parte das famílias e em alguns casos a perda do emprego.

 

O Ativo negocia hoje, 11/06/2020, ao preço de R$ 12,09. Com um lucro por ação dos últimos 12 meses de 2,97, o P/L atual da empresa é 4,07. Parece extremamente barata, pois em 4 anos o investidor recupera o valor, implicando em um rendimento anual de 25%. Utilizei os dados do site www.fundamentus.com , o qual recomendo pela facilidade em ter acesso a ótimos dados em uma única tela, além de poder fazer comparações entre ativos do mesmo setor e até de setores diferentes.

 

Importante mostrar que o resultado do 1º trimestre, já afetado parcialmente com o fechamento do comércio, a empresa apresentou prejuízo líquido de -R$ 55,365 milhões (ou  - R$ 0,18 por ação). Abaixo dados do lucro anual e dos últimos 3 meses também extraído do site citado.


 

Há um ditado que diz que "o diabo está nos detalhes" e é bastante apropriado para o caso. O lucro acumulado da empresa nos 12 meses até março de 2020, foi de R$ 915,87 milhões, o que perfaz os R$ 2,97 por ação e o P/L de 4,07 já mencionado.

 

No entanto, nesse montante está incluindo uma receita não-recorrente de R$ 643,7 milhões decorrente de crédito fiscal de ICMS, devido a exclusão do PIS/COFINS da base de cálculo do tributo estadual. Não recorrente é aquela receita que não se repetirá nos próximos trimestres, pois não é decorrente da operação normal da empresa, mas de um fato extraordinário e único. Recalculando o lucro sem essa parcela o montante cai para R$ 272,17 milhões (ou R$ 0,88 por ação). O P/L recalculado com esse lucro recorrente aumenta para 13,74.

 

Lembrando que nesse lucro anual estão incluídos bons trimestres de venda (2º trim a 4º trim/19) e que não devem se repetir pelos motivos já citados da crise em andamento e do fechamento das lojas.

 

Escolhi a CEAB3 como exemplo de fácil constatação de como é errôneo olharmos para o passado, calcularmos os múltiplos e concluirmos que uma empresa está barata. É preciso analisar em detalhes os números do passado, para excluir casos de não-recorrência como esse do crédito fiscal, bem como fazer projeção dos lucros futuros, à luz de um cenário que mudou desde o início do ano.

 

O crédito fiscal citado acima foi decorrente de ação transitada em julgado no STF, favorável às empresas. Portanto, muitas delas tiveram essa receita extraordinária reconhecida no ano passado e é bom ficar atento às companhias abertas e levar em conta esse fato quando estiverem analisando os múltiplos delas para uma possível compra da ação. Olho vivo nos detalhes! Nem tudo é barganha como parece.