Vejo problemas à frente com o quadro geral que se apresenta. Governo já demonstrou uma certa incapacidade de articulação no Congresso e foi mais uma vez derrotado na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ao priorizar o Orçamento Impositivo, em detrimento do andamento da reforma da previdência.

A consequência disso é que a probabilidade é alta de correção no Ibovespa. O nível atual de preços das ações já embute em parte a aprovação de alguma reforma. Caso fosse aprovada, mesmo com alterações, passaria tranquilamente pelos 100 mil pontos já atingidos esse ano e, quem sabe chegaria aos 125 mil pontos. Não aprovando, deve voltar para os 80 mil ou menos. São hipóteses apenas, mas não sem alguma base de fundamento.

O mercado trabalha bem com certeza e previsibilidade. Não é o que está ocorrendo atualmente. O cenário é turvo e enxergar à frente não ficou para os humanos. Mas a experiência passada nos dá um vislumbre do que pode vir a ocorrer. Já vimos esse filme antes. Para um governo que mal iniciou, o mercado esperava a construção de uma base parlamentar sólida e consistente, mas a lorota de "nova política" não parece ter convencido ninguém. E esse discurso só serve como pano de fundo para justificar a incapacidade de diálogo e convencimento.

Para os investidores em renda variável e que montaram suas carteiras no pós-eleições, quando se instalou um otimismo generalizado, certamente não comprou no fundo histórico da maioria das ações. Em outras palavras, pagou caro em muitos casos e, para ganhar, precisa de um cenário em que a economia retoma, o emprego volta e os lucros corporativos crescem. Eu não vejo esse cenário se formando e acho que ninguém que tenha bom senso ver. Os números divulgados são cada vez piores, seja crescimento, inflação ou desemprego. Então, o que fazer se já está posicionado?

Uma primeira decisão seria a desmontagem da carteira ou de boa parte dela, formando um fundo de liquidez, para aproveitar as correções que se espera e comprar mais barato as mesmas ou outras boas ações. Se algumas estiverem no lucro, acho bem prudente essa decisão. Até mesmo aquelas que estejam com pequeno prejuízo. O investidor de longo prazo pode dizer que os fundamentos não mudaram. Existe uma coisa no mercado que se chama preços relativos. Em um cenário macro pior, todos os ativos da bolsa são reprecificados para essa nova realidade. Você pode dizer que intrinsecamente os fundamentos de cada empresa não mudaram, mas nenhuma está imune aos aspectos gerais da economia. Então, todas são afetadas direta ou indiretamente, com impactos óbvios na lucratividade e no crescimento.

E se as ações estiverem nesse momento com prejuízo potencial considerável? Nesses casos, ou porque você perdeu o melhor ponto de saída ou a ação escolhida atravessa um momento péssimo, talvez seja melhor tentar rentabilizar essa carteira ao invés de realizar o prejuízo e esperar melhor momento para vender. E que formas de rentabilizar seriam essas?

A primeira, seria disponibilizar suas ações para aluguel (BTC). As ações mais líquidas costumam oferecer taxas bem baixas, devido à disponibilidade. Mas algumas ações têm taxas bem atrativas. Em alguns casos, o rendimento é baixo, mas se estiver disposto a esperar a tempestade passar e acreditar que um melhor cenário está próximo, inclusive com reformas aprovadas, pode ser uma alternativa. Resumidamente, o aluguel de ações funciona assim: um investidor quer apostar na queda de determinada ação; ele vende essa ação sem a possuir; para isso, ele paga um aluguel por essa ação, chamado de empréstimo, vende no mercado, aguarda a concretização da baixa e recompra mais barato para devolver ao dono. Existem regras bem claras definidas pela B3 e o real dono da ação não fica no prejuízo. Há garantias na operação.

Uma segunda alternativa, seria o possuidor de ações lançar opções de venda de seus próprios ativos (venda coberta de opções), recebendo um prêmio por isso. Caso o ativo desça até o preço de exercício, ele vende o ativo, provavelmente com prejuízo, que seria parcialmente compensado com o prêmio da opção recebido. Se o ativo, no vencimento da opção, for mais alto que o preço de exercício a opção vira pó e o prêmio é rendimento líquido para o lançador. Quanto mais perto do preço do ativo no momento do lançamento for o preço de exercício, mais alto é o prêmio, no entanto mais provável é essa opção ser exercida e você ser obrigado a vender a ação.

Outra forma de segurar sua carteira, pode ser comprar opções de venda a descoberto. Você adquire puts (como é chamada a opção de venda) de um certo ativo e, caso o mercado caia generalizadamente, sua carteira estará no prejuízo, mas suas puts terão se valorizado e compensado parte da perda. Essa é uma forma cara de fazer um seguro, pois em algum momento essas opções irão vencer e virar pó. Aí você terá que comprar novas puts, com vencimentos mais distantes, para continuar segurando sua carteira. O ideal seria comprar opções bem fora do dinheiro (expressão que significa o preço de exercício longe do preço de mercado do ativo no momento da compra), pois custarão centavos.

Mais uma alternativa seria comprar ativos, como dólar ou ouro que, em tese, se valorizariam em um cenário de crise. O ouro costuma ser um porto seguro nesses momentos.  

Se sua carteira tiver empresas boas pagadoras de dividendos, atravessará esses períodos recebendo participação nos lucros e compensando em parte a perda potencial de capital. Só alertando que em um cenário macro pior, até essas são afetadas e podem diminuir ou suspender a distribuição de dividendos. Renda variável é assim, varia. E em muitos casos, para baixo. Acostume-se com isso ou contente-se com a renda fixa pagando cada vez menos.