É fato que os resultados apresentados por pelo menos três institutos de pesquisa mostram que o presidente vem perdendo seu apoio entre os mais diversos segmentos. Em 100 dias de governo, é o chefe do Executivo mais mal avaliado em início de mandato.

Alguns cientistas políticos, entre eles o Alberto Carlos de Almeida, apontam o fenômeno como algo quase irreversível. Seria difícil a recuperação do prestígio junto ao eleitorado, diante de uma gestão nada propositiva, tendo como pauta única a extremamente negativa reforma da previdência. Todos concordam que é necessária uma reforma no sistema, diante do envelhecimento da população, do aumento da expectativa de vida e dos custos cada vez mais crescentes com seguridade. Mas não é qualquer reforma. A proposta teria que abarcar todas as categorias e segmentos da sociedade, para que todos arcassem com parte da conta que não fecha. E essa proposta não faz isso.

O sistema foi construído sob a forma de regime solidário, em que os trabalhadores da ativa pagam a aposentadoria dos inativos. Quando o tal sistema foi pensado, a proporção entre ativos e aposentados equilibrava essa pirâmide. A proporção de inativos irá aumentar ao longo dos próximos anos e esse castelo de cartas irá despencar. Todo o orçamento será consumido para pagamento de aposentadorias. Não há sustentabilidade a longo prazo. Algo precisa ser feito.

O problema da proposta em tramitação do atual governo é que tem um objetivo numérico de economizar mais de um trilhão de reais em 10 anos, sem levar em consideração outras questões. Falta sensibilidade aos que a propuseram. A previdência pública brasileira tornou-se o maior instrumento de distribuição de renda para as populações mais pobres. Para muitas famílias de municípios e zonas rurais distantes, essa é a única renda que dispõem na velhice. Muitos nem contribuíram para isso, mas o Estado não deveria deixar essa parcela vulnerável da população sem qualquer assistência.

O servidor público hoje, com as alterações das emendas de 20/1998, 41/2003 e 47/2005, tem como idade mínima 60 anos para homens e 55 para mulheres, sendo 35/30 de contribuição, respectivamente. Paga 11% sobre toda a remuneração para se aposentar com o salário da ativa, diferente da iniciativa privada que paga 11% sobre o teto (R$ 5,83 mil) e, portanto, se aposenta com esse valor. Reformar para que todos paguem igual e recebam igual é desejável e válido a partir da reforma, mas o período em que o servidor contribuiu sobre valor maior, precisa ser posto na conta em regras de transição justas. Os militares precisam fazer parte da reforma, sem privilégios. O que ocorre é que a proposta deles embute um reajuste que praticamente anula a contribuição que fariam. Enfim, são muitos detalhes e particularidades que não estão abarcadas pela PEC em discussão.

Entre os deputados, a queda de popularidade é bem acentuada. Sobre a reforma da previdência, a maioria mostra-se favorável. Mas há que diferenciar alguém que é favorável à reforma da previdência, em gênero, daquele que aprova a proposta atual. Vários pontos dessa reforma causam controvérsia. Entre eles, a alteração no valor do Benefício de Prestação Continuada, as regras de transição, as idades mínimas etc. Mas o ponto principal é o seguinte: a reforma que está aí não passa. É consenso até entre parlamentares. Ela será profundamente alterada e desfigurada e a economia será bem menor do que o pretendido.

Essa proposta consegue transformar a do Temer em uma proposta bem mais plausível e que teria uma maior probabilidade de ser aprovada. O tempo está correndo e o mercado está perdendo a paciência com esse governo. As ações devem sofrer uma correção forte, caso o andamento da reforma fique prejudicado. Seria prudente nesse momento a redução da exposição ao risco. Pode-se deixar de ganhar, caso seja aprovada, pois todos os ativos seriam beneficiados em um primeiro momento. Mas o contrário, fará todo o mercado "azedar" de vez e aí seria ótimo estar líquido para comprar ótimas barganhas.